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( 55 21 ) 2205 02 63 |
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Glaucia Nasser
Todas as vezes que li uma biografia minha escrita por outra pessoa senti que algo faltava. Os fatos estavam ali, assim como tudo o que eu havia conquistado ao longo da minha vida, mas eu não me sentia plenamente ali. Talvez por acreditar que uma pessoa é também tudo aquilo que sente e não apenas tudo aquilo que faz. Muitas vezes fazemos tanto, mas nosso coração nem sempre está em tudo. É como se fizéssemos por que assim a vida nos ensinou a fazer. Enfim, as biografias que eu li refletiam os meus feitos, mas não os meus sentimentos e foi por isso que aceitei o desafio de escrevê-la e falar sobre o que sinto e sobre quem sou.
Eu nasci em Patos de Minas, interior de Minas Gerais, e desde muito criança sempre quis ser uma artista. Era apaixonada por Regina Duarte e Eva Wilma, atrizes que me marcaram. Assistia às novelas e criava meus próprios personagens com os quais passava o tempo. Era uma deliciosa sensação. Na música adorava ouvir Raul Seixas. Um pouco mais crescida, perto da adolescência, imitava Gal Costa. Ouvia Elis Regina, Maria Bethânia, Elba Ramalho, Amelinha, Milton Nascimento, e bandas nacionais e internacionais como 14 Bis, Yes, Genesis e Supertramp.
Na minha adolescência cantei em festivais e pequenos shows. Fui chamada para fazer um teste na Ariola, mas naquele momento nada conspirava a meu favor. Precisei adiar meus planos e, depois de muito tempo, voltei a cantar em uma banda de baile da minha cidade. Também estudei canto lírico e popular durante dois anos, em Belo Horizonte, que fica a 400 km da cidade onde eu morava. A minha vontade de cantar era tão grande que essa distância não me impediu de fazer as aulas.
Fiz muitas coisas antes de ser cantora e compositora e me orgulho de todas elas, mas nada fiz com tanta alma, com tanta vontade. Minhas músicas refletem toda a minha história de vida. Nelas estão meus sentimentos, meus feitos, desejos, limites, buscas, contradições e posso dizer que continuarão refletindo por que só assim me sinto inteira, cantando, ainda que algumas músicas sejam de outros compositores, como aconteceu quando gravei o meu primeiro CD, Glaucia Nasser, em 2002 com canções de Anísio Dias, e no segundo também, com músicas de diversos compositores.
Quando gravei esse primeiro CD eu não tinha a menor idéia dos caminhos que deveria seguir para ser uma cantora de sucesso. Tudo era muito novo pra mim, mas alguns fatos como o convite para participar da coletânea de MPB Acoustic Brazil e em seguida o convite para participar da trilha sonora do filme The visitor, sinalizaram pra mim que este era um sonho possível e coloquei o pé na estrada, definitivamente.
Durante essa caminhada, outro fato marcante foi receber do Serginho de Carvalho um CD com uma música do Ivan Lins e Celso Viáfora, inédita e cantada pelo Ivan em piano e voz, composta para mim. Foi uma emoção muito grande receber de presente uma música inédita de um compositor do qual sempre fui fã. Foi essa canção que deu nome ao meu segundo CD, Bem Demais, em 2006. Além da música do Ivan, esse disco me trouxe outras alegrias, entre elas a oportunidade de regravar Balanço Zona Sul, de Tito Madi e gravar um samba inédito, Pretensão, de Paulinho da Viola.
Depois eu me redescobri, desta vez compositora, e tem sido uma das melhores experiências da minha vida. As canções que cantava na infância e a memória musical do jazz de Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan me ajudaram a compor as minhas músicas, improvisando a partir das minhas inspirações melódicas. Vou confidenciar uma coisa pra vocês, eu às vezes acordo procurando o meu gravador de mão para registrar improvisos como “parum derum parum derum parum daiá” e que resultou na melodia de Sambista Bom, faixa do meu CD autoral A vida num segundo, que lancei em fevereiro de 2008. No início eu não pensava que fosse possível compor assim. Depois , cheguei à conclusão que não podia descartar uma inspiração melódica por não saber tocar um instrumento.
Nesse meu CD autoral, que produzi com o violonista Luiz Enrique, cada músico da minha banda colocou todo o seu talento. Fizemos um trabalho de banda de garagem no qual todos interferiram nas levadas, nos arranjos dos instrumentos. Foi delicioso fazer isso e ver todos envolvidos em um trabalho nosso e não apenas meu. Gosto de todo o repertório do disco e uma faixa me toca profundamente, Basta Sentir. Ela fala da minha busca e do que precisei perder para encontrar. Basta Sentir vai de encontro a outro texto que me inspira e que é parte de um poema de Fernando Pessoa, O guardador de rebanhos:
"Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é
Os meus pensamentos
E os meus pensamentos
São todos sensações
Penso com os olhos
E com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
Deito-me na erva
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado
Na realidade
Sei a verdade e sou feliz.”
Enfim, duas coisas eu agradeço todos os dias: a voz que Deus me deu e a coragem de perseguir os meus sonhos. Entre eles a música. Se a história é breve, os capítulos são muitos. Alguns muito difíceis nos quais me conforto com as palavras de Fernando Sabino: “De tudo ficaram três coisas: a certeza de que estamos sempre começando, a certeza de que é preciso continuar e a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar. Portanto devemos: Fazer da interrupção um caminho novo, da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sonho uma ponte, da procura um encontro.” Foi assim que cheguei onde estou e sei que muito há para caminhar. Espero crescer ainda muito na música e sempre que isto acontecer vou fazer uma pausa, como agora, para contar mais um capítulo da minha história pra vocês.
Um beijo muito carinhoso.
Glaucia Nasser
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Idealização e Produção
Marcos Pinheiro
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